segunda-feira, 7 de junho de 2010

Visita Imperial a Santa Catarina

Império do Brazil
Província de Santa Catharina
Nossa Senhora do Desterro
Capital da Província

Visita Imperial
1845

Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bebiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga
Dom Pedro II
 ***
Conhecido por D. Pedro II, o Imperador do Brasil nasceu no Rio de Janeiro em 1825, filho do Imperador D. Pedro I e da Imperatriz Dona Leopoldina.
***
 
Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias
Dona Theresa Cristina
 ***
Natural de Nápolis (Itália), nascida em 14 de março de 1822, a futura Imperatriz Teresa Cristina, filha de Francisco de Bourbon, na época príncipe herdeiro do Reino das Duas Sicílias, mais tarde Francisco I, e de Maria Isabel de Bourbon.
 ***
Dom Pedro II assumiu o trono em 18 de julho de 1841, com apenas 15 anos de idade, se casou com Dona Teresa Cristina em 30 de maio de 1843, através de Procuração.

Eles só foram se conhecer em 04 de setembro de 1843, 96 dias depois, quando ela desembarcou na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil.

Na visita oficial a Santa Catarina, o Imperador estava com 19 anos e a Imperatriz com 23 anos. Os dois estavam apenas iniciando uma jornada que incluía construção da própria idéia de Nação Brasileira, consolidando o Estado Nacional surgido com a Independência do Brasil em 07 de setembro de 1822.

Proclamada a República em 15 de novembro de 1889, a Família Imperial teve que deixar o Brasil no mesmo dia, aguardou fundiada na baia do Rio de Janeiro a escolta da Marinha Inglesa por dois dias. Com problemas cardíacos, Dona Teresa Cristina sofreu durante toda a viagem, tendo falecido em Lisboa - Portugal, no dia 28 de dezembro de 1889, cerca de 40 dias após a partida. O Imperador seguiu para um breve exílio em Paris - França, onde faleceu no dia 05 de dezembro de 1891, com 66 anos.

Depois dos Funerais Régios na Franca, seu corpo foi para o Panteão dos Bragança, no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa. Com a revogação da Lei do Banimento, seus restos mortais acabaram transladados para o Brasil, onde repousam em Petrópolis, junto aos de Dona Teresa Cristina. O casal teve os seguintes filhos: Afonso (1845-1847), Isabel (1846-1921), Leopoldina (1847-1871) e Pedro (1848-1850).


O Casal Imperial em Nossa Senhora do Desterro
atual Florianópolis
  
O Desterro se transformou para a chegada de D. Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina. A região central da Villa foi decorada com arcos da ordem toscana (romana) instalados pelos comerciantes, os funcionários da Alfândega e os “artistas” (trabalhadores especializados), no adro da Catedral, dois no trapiche da Alfândega, outro no Paço da Câmara e em frente à Assembléia.

As barraquinhas de venda de pescados e de outros alimentos, instaladas junto à praia, no final da Praça Laguna, atual Praça XV de Novembro, foram deslocadas para as imediações do Forte Santa Bárbara, o retorno ou não ao antigo local, após a visita, levaria à formação dos primeiros dois partidos políticos do Estado. Por determinação da Câmara, foram “limpas, e asseadas”, todas as ruas, e “caiadas, e pintadas as frentes de todas as casas, procurando neste objetivo rivalizar o cidadão da mais medíocre com o da maior fortuna”.

Os integrantes da 1ª Legião da Guarda Nacional começaram os exercícios no dia 5 de outubro de 1845, uma semana antes da chegada do Casal Imperial. Formada por lavradores, e homens trabalhadores pouco abastados, e nenhum deixou de comparecer, não obstante mesmo a distância de suas residências a algumas léguas da Capital.
A expectativa e a angústia era grande, todos aguardando o glorioso dia.

Expectativa

Dia 11 de outubro de 1845. A chegada do Augusto Par foi uma espécie de encenação. Primeiro foi anunciado pelo “Mastro dos Sinais”, instalado provavelmente no Morro da Cruz, a chegada do vapor Brasileiro.

“A praça, e o trapiche, foram logo apinhados de gente de todas as classes. As 10 horas o vapor Imperatriz fundeou em frente a cidade do Desterro, na Baía Sul, com a notícia de que a comitiva imperial estava próximo a barra Norte.
Por volta das 11 horas, foi dado o sinal da chegada da fragata Brasileira. Tudo isso aumentava a expectativa e as pessoas procuravam se posicionar nas partes mais altas, na esperança de vislumbrar as embarcações. As 11h30, o vapor Imperatriz se reúne à esquadra imperial. Mas quem esperava uma rápida aparição, se decepcionou: às 14h30, uma embarcação com as principais autoridades locais partiu ao encontro da esquadra imperial, fundeada entre as ilhas de Ratones, na Baía Norte.
As autoridades regressaram às 21 horas, com a notícia de que D. Pedro II e Dona Teresa Cristina só desembarcariam no dia seguinte. “Nenhuma noite foi tão longa para os catarinenses”, diz o cronista de "O Relator Catarinense". Na manhã seguinte, bem cedo, a praça começou a lotar. As janelas das casas em volta estavam “guarnecidas de senhoras ricamente vestidas”. 

A Praça Laguna (atual Praça XV), rodeada de bandeiras colocadas em mastros a distâncias regulares.

O Desembarque

Manhã do dia 12 de outubro de 1845. O trapiche da Alfândega estava “decentemente ornado”, com tapetes estendidos, “e bordado de bandeiras flutuantes de todas as nações”, sendo logo ocupado por “pessoas do comércio, chefes das repartições públicas, e seus empregados, oficiais avulsos e reformados do Exército”, e as autoridades Eclesiásticas.

Os vereadores das Câmaras de Laguna e Desterro, estavam “trajados à Corte” – capas de seda e chapéus emplumados de arminho.

Também presentes o corpo Consular e os integrantes do 1º Batalhão da Guarda Nacional e da Companhia de Inválidos da 1ª Linha, formando alas entre o trapiche e a porta da Catedral.
Por volta das 11 horas teve início a parada militar, tendo à frente a Legião de Música da fragata Constituição, que chegara na véspera.

“As 11h30, o vapor Imperatriz fundeia no Porto. As autoridades vão até o navio receber o Casal Imperial. Uma salva da Brigada de Artilharia da 1ª Legião da Guarda Nacional marcou o momento, enquanto girândolas (baterias de fogos de artifício) atadas na porta do Paço da Câmara “anunciaram aos catarinenses que o Monarca brasileiro desembarcava no trapiche”, em meio a estrondos, “não cessantes Vivas”, abraços fraternais de “puro júbilo”, “lágrimas espontâneas da mais sincera alegria”.

Uma vez em terra, foram conduzidos debaixo de pálio até a Câmara e a Catedral, através das alas militares, acompanhados por centenas de pessoas e recebendo “chuvas de flores”.

Na Catedral, Te Deum (Missa Festiva), com música composta por João Francisco de Souza Coutinho, executada por um coro formado por funcionários públicos e oficiais da Guarda Nacional.

Terminado o ato religioso, seguiram ao Palácio, onde houve o “Beija-Mão”.

A Guarda Nacional desfilou em continência, observada da sacada pelo Imperador.
Em seguida o casal se recolheu para o descanso.

 “Imperator Secundos Petrus”
Protetor do Hospital de Caridade

A visita mais importante foi feita ao Hospital de Caridade, cercada de protocolos e encenações. Inicialmente circulou a informação de que o Imperador estaria determinado a lançar a primeira pedra do novo Hospital de Caridade “antes de sua retirada desta cidade”, tendo em vista ser o “único estabelecimento de tal natureza” em Santa Catarina.

O passo seguinte foi visitar a Igreja Menino Deus e o próprio Hospital de Caridade, às 10 horas do dia 14 de outubro de 1845.

Na chegada, o casal foi recebido “debaixo do pálio no princípio da extensa ladeira”, pelo provedor e os irmãos da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, em procissão. Ao chegar, os dois foram acomodados num “camarim, que se lhes tinha preparado com a decência possível”, tendo lugar um Te Deum Laudamus “cantado pelos padres Jesuítas em missão nesta cidade”.

Depois eles visitaram a Capela, as enfermarias do Hospital “sempre acompanhados da Irmandade, e do numeroso concurso de senhoras, e de homens, que enchiam a igreja”.

Ao deixar o local, foi entregue ao provedor, por ordem do Imperador, a quantia de 10 contos de réis, mais 1,2 contos da Imperatriz, destinados à construção de um novo hospital, pois o edifício existente se achava em ruínas.

Aos pobres que o abordaram, D. Pedro II também deu esmolas.
***
***
Conduzido sob o pálio pela Irmandade de volta ao Palácio, o casal ficou emocionado: das janelas, as pessoas os aclamavam, obrigando o cortejo a fazer diversas paradas, “por que muitas senhoras não satisfeitas de lançarem flores das janelas, saíram à rua a fazê-lo de mais perto”. O casal parava para receber “mais esta prova de amor”.

A encenação prosseguiu.

No mesmo dia, a Capela do Menino Deus foi visitada pelo bispo capelão mor Conde de Irajá.

No dia seguinte, o provedor e os irmãos foram ao Palácio agradecer a visita e a esmola. O Imperador foi declarado “Protetor da Santa Casa de Caridade desta Capital”.

O título precisava ser aceito, fazia parte do protocolo e das formalidades. Feito isso, “...as paredes de tão Santo Estabelecimento, como por magia, se erguerão dos cimentos, e os seus tetos chamarão a que ali se recolham os desvalidos e um e de outro sexo para lhes oferecer, se um leito de dor, ao mesmo tempo um leito de lenitivo, assim como chamarão os infelizes inocentes, condenados à privação das carícias maternais, que lhe sejam proporcionados os meios de sua criação, a fim de serem um dia súditos úteis de V. M. I.”.

O “Aceito”

Nove dias depois, em 23 de outubro de 1845, D. Pedro II anuncia que aceita o título de Protetor do Hospital de Caridade e determina “lançar ele mesmo a primeira pedra fundamental do novo hospital”.

Em conseqüência, o provedor da Irmandade, então secretário do Governo da Província, João Francisco de Souza Coutinho, “deu as devidas providências para esse ato soleníssimo”.

Às 16 horas do mesmo dia, “estava feita a cava do alicerce”, na linha lateral da atual Capela do Senhor Jesus dos Passos. As paredes da cava estavam forradas de cortinas de damasco e uma esteira de tapetes formava um “caminho espaçoso da porta principal do templo do Menino Deus ao lugar em que se descia” até o local da pedra. “O adro do templo se achava adornado de bandeiras, e um imenso povo o ocupava, bem como toda a extensa ladeira, desde a rua do Menino Deus”.

Corpo a Corpo com o Povo

Pouco depois das 16h30 os sinos repicaram, anunciando a chegada do Casal. “Partiu então a Irmandade em grande número de irmãos”, tendo à frente o Senador pela Província, o coronel José da Silva Mafra, e o deputado Jerônimo Coelho, “ambos com as vestes da Irmandade”.

Ao encontrar com o Imperador e a Imperatriz, “tiveram todos os irmãos a ventura de beijar-lhe as Mãos Imperiais”.

Seguiram debaixo do pálio até a Capela, onde o Bispo Capelão o aguardava “em vestes pontificiais”. Em seguida foi feita a benção da pedra fundamental que, “levada em procissão, foi colocada na cava do alicerce com as cerimônias usadas em tais solenidades”.

Terminado o ato, o casal foi novamente conduzido sob o pálio até o Palácio. No trajeto, tanto na ida quanto na volta, D. Pedro e Dona Teresa Cristina “tiveram” que “incomodar-se com a aluvião de senhoras, que de todas as casas saiam a lançar-lhes flores, e a beijarem suas Augustas Mãos”.

Conteúdo Fundamental
***
***
Na pedra fundamental, na abertura do alicerce, foram depositados: uma medalha de ouro com a seguinte inscrição:

“Pro charitate IMPERATOR SECUNDUS PETRUS hane Petram posuit anno Domini MDCCCXLV”;

Outra moeda de prata com os nomes do provedor (João Francisco de Sousa Coutinho), escrivão (João Narcizo da Silveira) e tesoureiro (Alexandre Martins Jacques) de 23 de outubro de 1845; e três moedas – uma de ouro de 10 mil réis (valor da Lei) da era de 1832, outra de prata de 1.200 réis (valor de Lei), da era de 1834, outra de cobre de 40 réis punçada, da era de 1832.

O Passeio à Pé pelo Desterro

No final da tarde do dia 15 de outubro de 1845, por volta das 17 horas e acompanhado por comitiva, o casal fez o primeiro passeio a pé pelo centro da Villa. Saindo do Palácio, iniciaram pela rua do Governador, atual rua Tenente Silveira, depois a rua do Ouvidor, atual rua Deodoro, chegando então a principal rua da Villa, a rua do Senado, atual rua Felipe Schmidt, indo desfrutar da visão que se tinha da chácara de Estanislao Antônio da Conceição.

Continuou o passeio pela rua do Príncipe, atua rua Conselheiro Mafra, até a Praça Barão de Laguna, atual Praça XV, rua Augusta, atua rua João Pinto, chegando até a rua do Menino Deus, de todas a única que conserva a denominação existente desde 1845.

O passeio incluiu o Campo do Manejo, área militar onde foi erguido mais tarde o Instituto Estadual de Educação, retornando ao Palácio, “onde se recolheram quase noite”, pela rua do Vigário, atual rua Fernando Machado. Durante todo o passeio, o Imperador e a Imperatriz, foram “acompanhados de uma multidão de pessoas de todas as classes”, recebendo “Vivas” permanentes das pessoas nas janelas e flores.

“A noite, a cidade ficou iluminada, “acenderam-se todos os arcos e colunas” e todas as casas “se iluminaram à profia”, junto com o “esplêndido luar".

Além disso, “Inúmeras girândolas subiram ao ar desde que anoiteceu” e, junto ao arco do comércio, “diversos fogos de vistas se atacaram”, e tocou a Banda da Fragata Constituição.

O Passeio à Cavalo

No dia 16 de outubro de 1845, após suspender uma visita à Lagoa da Conceição por causa das chuvas, D. Pedro e Dona Teresa Cristina visitaram a Alfândega, o Armazém de Marinha, as obras da Casa para arrecadação de artigos bélicos, a Tesouraria da Província, a Provedoria da Fazenda, e a Tipografia Provincial, todos na área central.

Na Provedoria da Fazenda quis saber detalhes da receita e os impostos cobrados. Na Tipografia, “entreteve-se por algum tempo em ver compor, e imprimir”.

Depois voltou ao Palácio. Às 17 horas, “com uma das senhoras da sua comitiva”, e autoridades, D. Pedro II deu um passeio a cavalo pela rua do Passeio, atual rua Esteves Júnior, seguindo pela Praia de Fora até a estrada de acesso Detrás do Morro, atual Trindade, dali, alcançou o Saco dos Limões, “regressando num escaler” para o Centro da Villa.

Beija-Mão

Domingo, 19 de outubro de 1845. O tradicional “Beija-Mão” ao amanhecer, às 13 horas, e no por do sol, salva de tiros da Brigada de Artilharia da Guarda Nacional postada na praça do Palácio, correspondida pelas embarcações de guerra e as fortalezas de Santa Cruz e Santana.

Às 13 horas, cumprimentos do corpo consular, chefes e oficiais das embarcações estrangeiras e “deram Beija Mão a toda a população”, começando pela Câmara Municipal. Compareceram oficiais da 3ª Legião da Guarda Nacional das Villas de São José da Terra Firme e São Miguel, atual Biguaçu, precedidos pelo coronel Neves.

Nesse dia, o casal recebeu as 54 alunas da professora Felicidade Cândida da Conceição – “engraçada e ricamente trajadas, e conduzidas pelo marido da diretora o cidadão Antônio de Souza Fagundes”. O professor de primeiras letras José Joaquim Lopes, apresentou seus 40 alunos, seguido pelos padres jesuítas.

Passeio Noturno

À noite, por serem jovens os Imperadores deram uma passeio a pé, percorrendo “todas as iluminações da praça”. Seguindo pela rua do Príncipe, atual rua Conselheiro Mafra, foram ver a iluminação que o cidadão Antônio Luiz Cabral “fez erigir na frente da casa de sua residência, e que, como as  outras, tem sido acessas desde o dia da chegada de SS. MM. Em todas as iluminações”, o casal foi recebido por “numerosas mirândolas, e acompanhados sempre de uma imensa multidão de povo em continuas saudações de Vivas!”

Praia de Fora

Na tarde do dia 25 de outubro de 1845, SS. MM. e comitiva deram um passeio até a Praia de Fora (região das ruas Almirante Lamego e Boicaiúva), passando pela Igreja São Francisco e o Teatro Particular Catarinense.

Teatro Particular Catarinense

No dia 26 de outubro de 1845, deu um “esplêndido jantar”. À noite, foi ao Teatro Catarinense, dirigido pelo capitão José Caetano Cardoso, que ao lado dos membros da diretoria, preparou o local para a visita. Um coro de senhoras antecedeu a comédia “O Avaro”, seguido do “Entremez – Ensaio de uma Tragédia”.

Os intervalos foram “preenchidos por lindas peças de músicas”. Como na ida, foram conduzidos em alas de sócios com tochas acessas. A presença de oficiais dos vasos de guerra estrangeiros, “tornou a companhia a mais luzida possível”.

Visita Concorrida

No sábado, dia 1º de novembro de 1845, às 17 horas, D. Pedro II visitou os navios de guerra no porto e “mandando aportar a galeota à praia da Arataca, visitou também o forte de Santana, situado na extremidade do morro denominado Rita Maria”.

No domingo, dia 2 de novembro de 1845, o Conde de Irajá celebrou na Catedral o Santo Sacrifício da Missa, e fez a entrega das Primeiras Ordens a cinco estudantes de Gramática Latina, filhos de João Lino da Silva – Bartholomeu Álvaro da Silva, Francisco Duarte Silva, Domingos Luiz do Livramento e Duarte Teixeira da Silva. Depois, houve o Beija-Mão de despedida no Palácio.

Dia 6 de outubro de 1845, depois do jantar, o Imperador foi ao forte de Santa Cruz, onde estava ancorada a Frota Imperial, retornando às 21 horas.

No dia seguinte, visitou a Escola Pública de Primeiras Letras e o Hospital Militar, “onde lhe saiu ao encontro, quase curado, o marinheiro do patacho Argos, que sofreu a amputação do braço pelo tiro da salva no dia 20 de outubro, a quem SS. MM. mandou dar 100 mil réis, assim como abonar continuadamente os seus vencimentos no estabelecimento de inválidos da Corte”.


D. Pedro II pescando na Lagoa da Conceição

A cena deve ter sido realmente inusitada: o jovem Imperador D. Pedro II, meio desajeitado, embarcando numa canoa na Lagoa da Conceição para passear e pescar. O que chamou mais a atenção foi o fato de ele ter mandado capturar alguns peixes e distribuí-los aos moradores. O fato ocorreu no dia 18 de outubro de 1845, durante a visita de quase um mês que o casal realizou a Florianópolis e região, marcando presença na Lagoa. 

Prevista inicialmente para o dia 16, a visita foi desmarcada à pressas por causa de um mau tempo, o que deixou os moradores da Lagoa frustrados por cerca de 48 horas.

No dia 18, entretanto, a comitiva deixou a cidade por volta das 8 horas, seguindo num escaler pela Baía Norte e desembarcando na então chamada ponte grande do Itacorubi – na Reta das Três Pontos, atual avenida da Saudade. O resto do caminho foi feito a cavalo.

Num determinado ponto do trajeto, o casal imperial parou na casa de José Silveira de Lacerda, “cuja família recebeu a SS. MM. lançando-lhes flores, e dando todas demonstrações de seu apreço, e reconhecimento à honra, que recebiam ali”, segundo O Relator Catarinense. Depois do almoço, o sempre curioso D. Pedro II permaneceu algum tempo observando o funcionamento do engenho de cana de Lacerda.

Já passava das 11 horas quando chegaram na Lagoa, “sendo recebidos no princípio do arraial debaixo do pálio”, seguindo para a igreja, onde estava reservado um camarim ao casal. Logo após um Te Deum entoado pelo vigário e cantado pelo coro de empregados públicos e oficiais da Guarda Nacional, D. Pedro II e Dona Teresa Cristina foram conduzidos debaixo do pálio até o local onde descansaram, retornando mais tarde à igreja para acompanhar uma missa.

Após o jantar, foram conhecer a Lagoa, momento em que o Imperador e a Imperatriz embarcaram numa canoa para um passeio. “Acompanhados das pessoas de seu cortejo, divertiram-se durante a tarde”, e mandaram “lançar uma rede de pescaria, e distribuíram os peixes que se apanharam pelas pessoas pobres do lugar”. Os dois passaram momentos bastante descontraídos e agradáveis.

Durante a presença na Lagoa foram acompanhados pelo vigário local, João de S. Boaventura Cardozo, que em viagem anterior à Corte no Rio de Janeiro, havia presenteado o Imperador com um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, com anotações do próprio autor.

Na ocasião, o padre fora nomeado Pregador de Sua Imperial Capela. Por isso o reencontro foi cercado de muitas lembranças. Alguns anos depois, o padre receberia do Imperador a medalha da Ordem de Cristo. Era quase noite quando a Comitiva Imperial tomou o caminho de volta, atravessando o morro a cavalo e embarcando novamente na Reta das Três Pontes (onde restam duas) e chegando por mar até o Centro, por volta das 22 horas. “Estava a cidade em seu maior brilhantismo de iluminação: a praça e o trapiche, também iluminados, achavam-se apinhados de imenso povo, que formou duas alas cerradas por entre as quais seguiram SS. MM. até Palácio”. Inúmeras girândolas subiram ao ar, “lançadas das diferentes iluminações da Praça, em que soavam incessantes Vivas.


Visita ao Norte da Ilha de Santa Catarina

Faça chuva ou Faça sol
O Imperador e a Imperatriz visitam Santo Antônio

Claro que um passeio por Santo Antônio de Lisboa em dias ensolarados e quentes é muito mais agradável, quando se pode velejar, tomar banho de mar, caminhar por trilhas. Mas existem aqueles que não pensam assim, como o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina, no dia 21 de outubro de 1845, às 9 horas, eles embarcaram no vapor Imperatriz e enfrentaram a lestada que se armava para chegar até o distrito.

O casal desembarcou por volta das 11h30, sob forte vento, mas “entre vivas entusiastas da população”, como podemos conferir em “O Relator Catarinense”, editado em 1845 pela Tipografia Provincial (Cidade do Desterro), para registrar a passagem dos Imperadores rumo ao Rio Grande do Sul, indo dar o toque final na pacificação do pós-Revolução Farroupilha. Uma vez em terra, seguiram debaixo de um pálio conduzido por oficiais da Guarda Nacional, rumo a um Te Deum (missa festiva) na Igreja.

“Conquanto o tempo ameaçasse chuva, e o vento fosse desabrido”, diz o citado jornal que pode ser encontrado na Biblioteca Pública do Estado, “estava o Arraial, e a Igreja Matriz, apinhados de povo de todas as condições, tomado da mais viva alegria por ver entre eles os seus soberanos”. Durante a visita que ficou profundamente marcada na memória da população local, “o templo estava decentemente ornado”, o que provocou elogios de Dom Pedro ao Vigário.

“Dirigiu-lhe ao vigário algumas palavras significativas do interesse, que por ele tomava, e fez que lhe ficassem provas de sua imperial generosidade”, possivelmente a coroa de prata usada na tradicional Festa do Divino e posteriormente furtada, na década de 1980. “Como principiasse a chover”, conta “O Relator Catarinense”, o casal retornou ao vapor, prosseguindo viagem para a Villa de São Miguel, atual Biguaçu, onde pretendia desembarcar. “Mas sendo copiosíssima a chuva, e arriscado o desembarque” por causa do vento leste, a comitiva retornou ao centro do Desterro, atual Florianópolis.

Se o imperador que era o imperador veio, outros haveriam de vir. Os marinheiros e navegantes embarcados em navios, costumavam ancorar no espaço na região de Sambaqui e Daniela. Quase todos chegavam corridos de alto mar pelas tempestades, buscando abrigo nas baías do Desterro, aproveitando para se abastecer de água, madeiras e alimentos.

A água passou a ser obtida no final do século XIX de uma calha que descia do alto do morro, onde havia e há um reservatório. As madeiras eram negociadas com moradores locais, que sabiam onde estavam as árvores mais procuradas, o mesmo acontecendo com os alimentos: muitos peixes e camarões frescos ou secos, farinha de mandioca, algum aguardente e, mais tarde, já no século XX, as famosas rendas de bilros, entre outros produtos.


Visita ao Ribeirão e Ilha do Campeche

A visita ao Ribeirão da Ilha foi relâmpago. O casal chegou por volta das 11 horas do dia 27 de outubro de 1845, a bordo do vapor Imperatriz, sendo recebido por uma multidão de pessoas que aguardavam na praia. O Imperador e a Imperatriz foram então conduzidos “debaixo do pálio” pela Irmandade do Santíssimo Sacramento até a Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão, ainda existente.

Após um breve Te Deum cantado pelo Vigário, D. Pedro II e Dona Teresa Cristina retornaram por onde haviam chegado, embarcando novamente. Antes de partir, o Imperador entregou ao Vigário a quantia de 400$000 réis, valor destinado a reparos na Igreja, a construção de duas portadas de pedra e a aquisição de portas, janelas e caixilhos com vidraças. 

O vapor Imperial seguiu pela Barra Sul, contornou a ponta da Ilha de Santa Catarina e lançou âncoras em frente à Ilha do Campeche, onde o casal pode apreciar a paisagem. Por volta das 16 horas, teve início o retorno pelo mesmo trajeto, até o porto da cidade, passando em frente ao Ribeirão. D. Pedro e Dona Teresa Cristina chegaram ao centro às 18h30, quando a embarcação foi liberada para visita de convidados.


São José da Terra Firme recebe o Imperador

A praça central da Villa de São José ficou apinhada de gente na manhã do dia 20 de outubro de 1845, quando o Imperador Pedro II e a Imperatriz Dona Teresa Cristina desembarcaram num cais construído às pressas para a ocasião. Estavam acompanhados de uma pequena multidão em escalares de navios de guerra e três iates “embandeirados em arco com muito gosto” e uma banda de música.
Recebidos no cais pela Câmara Municipal, seguiram para a Igreja de São José “debaixo do Palio levado pelos vereadores, trajados à Corte com capas e bandas de cetim branco”, passando por “alas de coqueiros, ligados por grinaldas de verdura”, nos conta o autor de “O Relator Catarinense”. O casal parou alguns instantes em frente à Igreja, decorada com uma “elegante arcada, ao pé da qual estavam em duas alas de meninas elegantemente vestidas”.

Tudo correu dentro da maior formalidade. Duas meninas aguardavam o casal, filhas do coronel Joaquim Xavier Neves e do tenente-coronel Luís Ferreira do Nascimento e Mello, para saudar e lançar “uma chuva de cheirosas flores”.

Viva!

Na Igreja, o Vigário entoou o Te Deum laudamus, pronunciando depois um “eloqüente e bem traçado discurso”, tendo como tema o Verso 24 do Livro 1 dos Reis, capítulo 10. “E Samuel disse a todo o povo: agora já conheceis, a quem o Senhor escolheu, porque não há em toda a Nação outro, que iguale a este. E todo o povo o aclamou, gritando: Viva e Rei!”.

Terminada a solenidade religiosa, os Imperadores seguiram até a casa do coronel Neves, “cuja hospitalidade se dignaram a aceitar”, e onde houve “Beija-Mão".

A 3ª Legião da Guarda Nacional, “lusidamente uniformizada com o número de 600 baionetas e 250 cavaleiros guarneciam as faces da praça da Matriz”, dando as “descargas de estilo, e formando em coluna aberta, executou a marcha em continência”, se retirando em seguida.

Depois do jantar “delicado e abundantemente servido”, D. Pedro, Dona Teresa Cristina e seus seguidores montaram, se deslocando a cavalo até a Praia Comprida (região de Campinas e Kobrasol), onde foi oferecido um “espetáculo de corridas de cavalos, e de lançamento de bois, à moda do Sul”, tido como o Primeiro Rodeio de quem se tem notícia no Estado.

Cidadãos Notáveis

A estrada que ligava São José ao Estreito, numa extensão de “légua e meia, estava bordada de um lado e de outro de habitantes de ambos os sexos, desejosos de, ainda uma vez, gozarem no seu distrito a presença de seus Soberanos”. Além do Corpo de Cavalaria da Legião, outros 200 moradores acompanharam o casal.

No Estreito, as embarcações aguardavam para conduzir a comitiva de volta a São José, cujo Centro Histórico fora iluminado. No trapiche, estavam presentes “todos os cidadãos notáveis”, muitas “alas de imenso povo” e “grande número de girândolas”, terminando com “Vivas repetidos de todos os lados”. E o casal foi embora.


Retorno

D. Pedro II retornou a São José da Terra Firme uma semana depois. Primeiro à caminho de Caldas do Cubatão, atual Caldas da Imperatriz, depois acompanhado do conde de Irajá, capelão-mor de SS. MM., para administrar o sacramento da confirmação.

Na primeira vez que Irajá administrou esse sacramento, dia 18, “foi tão grande o concurso dos confirmandos, que só a paciência suma do Apóstolo de Jesus Cristo, só a grande prudência de seus assistentes”, com a ajuda de outros prelados, “seriam capazes de conte-lo!”

O ato, repetido no dia 19, teve a mesma afluência, obrigando o bispo a “continuar na administração do Crisma nas seguintes noites efetivamente”.

 O conde de Irajá reconheceu as dificuldades da população, pois grande parte de “suas ovelhas”, não pode comparecer à Igreja de dia, “por falta de trajos para irem a seus pés”. O bispo chegou a permanecer até por volta de 22 e 23 horas ministrando a crisma, além de dar esmolas a vários pobres, e miseráveis.”


Rumo a Caldas do Cubatão

Quinta-feira, 29 de outubro de 1845. Acompanhado da sempre numerosa comitiva, D. Pedro II e a Imperatriz Dona Teresa Cristina embarcam às 7h30 com destino a Caldas do Cubatão, hoje Caldas da Imperatriz, no município de Santo Amaro da Imperatriz, passando em São José da terra Firme para um almoço na casa do coronel Xavier Neves. A presença do casal provocou “grande concurso de povo, por entre uma chuva de flores, correspondente ao grande número de foguetes lançados ao ar”.

Terminado o almoço muito “bem preparado”, os dois tomaram o rumo de Caldas, cuja estrada estava “de um e outro lado, bordada quase efetivamente de alas, feitas pelos seus moradores de ambos os sexos, e de todas as idades, que mostravam em seus semblantes, misturados com a simplicidade dos costumes campestres, a sincera amizade e adesão ao nosso Imperador e à nossa Imperatriz, a admiração, e júbilo, que os arrebatava, pela presença dos Augustos Monarcas em seus lares!”.

A melhoria da estrada entre São José e Caldas do Cubatão foi assumida pelo mesmo coronel Xavier Neves, uma das primeiras providências tomadas ao ser confirmada a visita imperial. “Este trabalho, que o digno coronel levou a efeito", teve o “espontâneo e gratuito serviço de 1200 cidadãos, que concorreram ao convite do diretor”, serviço que abrangeu “todas as pontes e caminhos do município de São José”.

O povo que ladeava a estrada proporcionou um espetáculo à parte, ricamente ilustrado pelo linguajar da época. “Reconhecia-se nesses semblantes o êxtase de que se achavam apoderadas almas tão puras! Viam, e ajoelhavam-se ante o PAR Excelso; lançavam-lhe com suas próprias mãos um aluvião de flores; saudavam-no com incessantes Vivas”.

As pessoas, segundo o mesmo cronista de “O Relator Catarinense”,  “ouviam com seus ouvidos as meigas e doces frases, que Ele lhes dirigia; pegavam, levavam a seus lábios, beijavam, e inundavam com lágrimas de prazer as Mãos sagradas dos Monarcas e parecia-lhes um impossível o que viam, o que ouviam! Parecia-lhes um sonho o gozo, que estavam tendo, a felicidade e honra que desfrutavam!”

Gozou de Igual Prazer

Por volta das 14 horas, chegaram à Fazenda Santana, na então localidade de Cubatão (atual sede de Santo Amaro da Imperatriz), se instalando na casa de Joaquim Alexandre de Campos, fundador da cidade e responsável pela guarda da Fonte de Caldas. Ali foi servido um jantar que o mesmo coronel Neves “tinha feito preparar com a possível profusão”.

Jantados e descansados, continuaram a jornada, chegando ao entardecer no Passo do Rio Cubatão, imediações da atual ponte de acesso a Caldas, onde se achava uma “jangada decentemente arranjada, e tapisada”, quer dizer, coberta por tapetes, com duas cadeiras em que “os Augustos Monarcas” puderam se sentar para a travessia do rio. A embarcação foi conduzida até a outra margem por 16 homens que entraram na água para realizar o transporte. Já era noite quando percorreram o último trecho do caminho até Caldas.

No percurso o casal deve ter pensado na chegada ao Passo do Cubatão, com características de apoteose: o local estava guarnecido de “arcos com festões de flores silvestres presos nas palmeiras fincadas em alas, entre as quais se via um grande número de habitantes do lugar, sendo a maior parte moças”, todas trajadas “com bastante aceio”. Elas receberam o casal lançando flores “com profusão, acompanhadas de Vivas”, repetidos do outro lado do rio, por igual número de pessoas.

Exaustos, o Imperador e a Imperatriz chegaram finalmente ao destino, onde usufruíram uma “bem servida ceia, e outras comodidades que, de certo, não sem grandes dificuldades ali se pode providenciar”. Tudo foi coordenado pelo comendador Marcos Antônio da Silva Mafra, e “quem conhece a posição das Caldas, deve bem aquilatar o trabalho e dificuldades, que se apresentaram a este digno cidadão, mas que teve forças para superar”. O hotel estava em obras e as banheiras de mármore só seriam instaladas alguns anos depois.

Pedro e Teresa Cristina ficaram hospedados “na casa principal do estabelecimento de que é Protetora a Augusta Imperatriz dos Brasileiros, enquanto “uma grande parte da comitiva, convidada pelas fadigas da jornada, e intenso calor de todo o dia, deu-se ao prazer dos banhos, na mesma noite”.

No dia seguinte o casal visitou o hotel, na época com características de hospital, “mostrando-se satisfeitos com o que encontraram”. O Imperador “se entregou por algum tempo a algumas observações termométricas, e em conservações a este respeito”.

Depois “quis banhar-se, não nos banhos quentes, mas no ribeirão das Águas Claras, onde se lhe arranjou de momento uma espécie de barraca”, abrigando também a Imperatriz que “gozou de igual prazer”.

Enquanto esteve em Caldas, o Imperador Pedro II se avistou com dona Vitória, “moradora no Cubatão, de mais de 90 anos de idade”, que teve a “bem ventura de chamar a atenção” do casal imperial, “dando as mãos para que fossem beijadas”. Bastante conhecida na região e “estirpe de uma imensa prole”, cujas “virtudes e caridade”, emocionou o casal.

No dia seguinte, todos partiram depois do almoço, às 8 horas. “A passagem do Cubatão fez-se pela mesma forma” que na chegada, indo o casal jantar na casa de Joaquim Alexandre de Campos, antes de partir rumo à capital catarinense.

Retratar

“Quiséramos poder descrever com as próprias cores”, diz o cronista de “O Relator Catarinense”, tanto a “recepção dos Augustos Monarcas em toda a extensão desde São José até as Caldas, como a sensibilidade, que o conjunto de circunstâncias, dadas nessa jornada, foram capazes de produzir no animo de todos os observadores”.

Entretanto, “já que nossa insuficiência tão longe disso nos retém, contentamo-nos com narrar os fatos despidos de atavios, e somente ornados com as vestes cândidas da verdade”.

O passeio a Caldas, segundo o cronista, “apresenta um extremo agradável, e bem digno de ser traçado pelo pincel de um Rafael, ou de um David! Quadro em extremo demonstrativo do ano, e da fidelidade Catarinense para com seus Pios e Benfazejos Monarcas!”, diz. “Quadro, enfim, que atravessará, com as cores sempre vivas, a extensa região dos tempos; porque aqueles, que o presenciaram, desenhá-lo-ão a seus netos, e estes aos netos de seus netos”.

Nove Meses Depois

Concluindo, diz o cronista que “os Nomes, a Benignidade, e Munificência do Senhor D. Pedro Segundo e da Senhora Dona Teresa Cristina de Bourbon serão indeléveis em todo o sempre na memória do povo catarinense”.
***
Casa Imperial
***
Tanto na ida a Caldas como na volta, não cessaram de distribuir generosas esmolas a todos os pobres, que tiveram a ventura de aparecer-lhes”.

Nove meses depois da visita a Caldas, em 29 de julho de 1846, o Casal Imperial viu nascer a Princesa Isabel, fato até hoje comentado em Santo Amaro da Imperatriz. Alguns marcos lembram até hoje a presença de Dom Pedro e Dona Teresa Cristina, principalmente nas denominações de casas comerciais, empresas prestadoras de serviços e da água mineral, entre outros, como o próprio nome da cidade.
***
Princesa Isabel
***

O Imperador Fotógrafo

Dom Pedro II tinha apenas 14 anos de idade e aguardava a aprovação da lei da Maioridade para assumir o trono brasileiro, quando adquiriu a primeira máquina fotográfica. A historiografia sobre o tema o aponta como o primeiro fotógrafo brasileiro, apesar de a sua produção não ter sido divulgada até hoje, permanecendo nas mãos da Família Imperial. Segundo Joaquim Andrade, “existem pelo menos duas fotografias, na posse de seus herdeiros, cuja autoria é atribuída a D. Pedro II”.

Seu interesse começou no dia 23 de dezembro de 1839, com a chegada do navio francês L’Orientale ao porto do Rio de Janeiro, trazendo a bordo o abade Louis Compte, apontado por Boris Kossoy como o “autor das primeiras demonstrações do processo de Daguerre na América do Sul”, o daguerriótipo. A partir de 17 de janeiro de 1840, o abade passou a comercializar as máquinas a cuja produção dera início no Rio de Janeiro.

Compte, diz Kossoy, realizou demonstrações públicas da técnica fotográfica e visitou o Imperador por essa época. “Suas altezas imperiais” se encantaram “ao ver fixados em nove minutos os aspectos da fachada do Paço”, conforme registrou o Jornal do Comércio de 21 de janeiro de 1840, citado por Kossoy. Assim, quando veio a Florianópolis, então Desterro, em 1845, o Imperador já havia adquirido o equipamento, mas não existem registros de que o tenha trazido.

O certo é que em todas as suas viagens pelo Brasil ou ao exterior, levava consigo especialistas em diversas áreas, incluindo um fotógrafo.

No Museu Imperial e o Instituto Histórico de Petrópolis (RJ), realizaram exposição do acervo fotográfico reunido pelo Imperador, produzido por diversos profissionais – intitulada “As muitas faces de Pedro”.

Ao deixar o Brasil a caminho do exílio em 1889, o Imperador entregou a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma coleção com cerca de 25 mil fotografias.

A partir de 1990, elas começaram a recuperadas e identificadas, com o apoio do Instituto Cultural Banco Santos, instituição que organizou a exposição “De volta à luz”, com 220 fotos e retratos pintados a óleo.

Prova do interesse de D. Pedro II pela fotografia está no título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, concedido por ele a partir de 1951, aos melhores profissionais. Os dois primeiros foram os fotógrafos Louis Buvelot (primeiro a registrar em fotos a família imperial) e Prat.

Até 1889, premiou duas dezenas desses pioneiros. 

Esse lado do Imperador-fotógrafo despertou a atenção do professor brasileiro Roberto Klatlab, residente no Líbano, que prepara o lançamento de um livro sobre as visitas realizadas por D. Pedro II ao Oriente Médio e Norte da África em 1871 e 1876.

Além de textos do Imperador sobre as viagens, publicará fotos produzidas por ele – que podem ser as primeiras a estar chegando ao público brasileiro.

Além disso, Klatlab aponta D. Pedro II como o pioneiro nas relações entre o Brasil e os países árabes.

Fontes:
Sobre a fonte principal dos textos da visita imperial de 1845: “O Relator Catarinense”, série de oito edições e um suplemento, editados entre 13 de outubro e 13 de novembro de 1845 e publicados pela Typografia Provincial. Os exemplares consultados foram doados ao Instituto Histórico de Geográfico de Santa Catarina no dia 21 de outubro de 1924 por João Martins Veras, recebidos por José Boiteux.
Site: Repórter Historiador
ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. História da fotorreportagem no Brasil – A fotografia na imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-fotográfico Brasileiro – Fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

2 comentários:

  1. Muito boas informações, a nós Catarinenses que pouco sabemos da própria história. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Não sabia nada disso! Isso precisa entrar pros livros de educação!
    Parabéns!!

    ResponderExcluir